Mea culpa! Mea maxima culpa!

Até ao dia 11 de Setembro de 2001 e, particularmente aqui em Portugal, até 11 de Março de 2002, estávamos, descansada e tranquilamente afundados no sofá, habituados a assistir, via tv, às guerras que, simultânea, alternada ou continuamente, íam deflagrando por esse planeta fora. Sem os efeitos especiais dos filmes de Hollywood, o impacto dessas reportagens de guerra, transmitidas ao almoço ou à hora de jantar, era sempre inferior ao daqueles. Para compensar a falta de emoção, nada como ir ao clube de vídeo mais próximo alugar um filmezinho que, esse sim, pudesse ser capaz de nos fazer levantar nem que fosse um só cabelo das nossas desocupadas e entediadas cabecinhas. “Lá andam os americanos outra vez em guerra...”, “São uns cowboys!”, “E os muçulmanos? Que histéricos, sempre a suicidarem-se!”, “Estes americanos, dizem que estão a defender os direitos humanos, mas toda a gente sabe o que eles querem!”, etc., etc., eram alguns dos poucos comentários que as reportagens de guerra conseguiam arrancar-nos, a nós, preguiçosos europeus, super-protegidos no nosso irredutível continente por invencíveis coligações militares.
A partir dos acontecimentos de Nova Iorque, Madrid e Londres, começámos a perceber que afinal a guerra podia chegar, e chegava, até nós. Começámos a questionar o valor de lançar bombas do ar, a partir de grandes altitudes, em oposição ao de colocar bombas no solo ou subsolo. De facto, que diferença faz para quem leva com elas? A insegurança foi-se instalando aos poucos em nós, habituados a possuír exércitos que levavam a guerra a regiões exóticas, mas não a sermos alvo de acções bélicas de guerrilheiros vindos desses lugares remotos. Velhos estereótipos foram ressuscitados de vocabulários que supúnhamos esquecidos e definitivamente arquivados: “terrorista”, “instrumento do mal”, “demoníaco”, “guerra santa”, “cruzadas”, termos que vão recuando no tempo, desde a guerra colonial terminada em 1974 até à Idade Média.
Percorrendo a blogosfera, encontramos de tudo um pouco, mas é hilariante verificar alguns efeitos que a situação de guerra tem produzido. É o intelectual de direita a gritar os piores insultos que consegue produzir contra a "escumalha muçulmana", é o aparentemente apolítico cidadão a rezar com abnegação “pais-nossos” e “avés-marias”, é o ex-colonialista apregoando a nostalgia do império e a razão do ditador orgulhosamente solitário! Não há-de tardar muito até os vermos por aí nas ruas, tabuletas atrás e à frente e megafone na mão, a anunciar a chegada dos bebedores de chá e, com eles, a proximidade do fim do mundo e das nossas insubstituíveis garrafeiras!

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