O Regicídio - IV


Ninguém ignora já hôje, não só em Portugal, mas no estrangeiro, que na tarde do dia 1 do corrente fôram víctimas de espantôso attentado, em Lisbôa, o rei sr. D. Carlos I e seu filho o príncipe herdeiro D. Luiz Filippe. Mas o nosso devêr de chronistas é consignar aqui os factos tanto mais que êlles não podem sêr indifferentes a nenhum português. Não é aqui o logar para considerações sôbre tão grave acontecimento, o que em artigo editorial nos referimos; e a própria narrativa do crime tem de sêr muito succinta, servindo-nos pâra este effeito a versão que se considera mais exacta e dada por testimunha presencial.
O sr. D. Carlos I, com sua magestade a raínha D. Amélia e o príncipe D. Luiz Filippe, regressavam, como dissemos, de Villa Viçosa. Haviam desembarcado ás 5 horas e 20 minutos da tarde. Aguardados pêlos infantes D. Affonso e D. Manoel, presidente do consêlho de ministros e dignitários da côrte, e tendo recebido os cumprimentos officiaes, tomaram logar num landeau o sr. D. Carlos I, á esquêrda de Sua Magestade a raínha D. Amélia, e o príncipe D. Luiz Filippe á direita de seu irmão o infante D. Manoel. Por entre uma multidão compacta de pôvo rompeu o cortejo real, que seguia pêlo Terreiro do Paço pêlo lado do ministério da fazenda, em direcção á rua do Arsenal. Foi aí que se produziu a horripilante tragédia.
Como se deu o attentado

Quando a carruagem real avançava, no passo regular dos cavallos, em frente do último arco da arcada do ministério da fazenda, onde ha um kiosque e onde costuma estar um engraxadôr, saíu de entre a turba, armado de um revólver, um rapaz bem vestido, tipo de operário, trajando um pouco á Marialva.
Esse indivíduo avançou pâra a carruagem, subiu-lhe ás trazeiras e disparou contra o sr. D. Carlos um tiro que o alcançou no lado esquêrdo do thorax. Ao mêsmo tempo, a raínha ergueu-se, soltando, com os dois filhos, um enorme grito de dôr, e, levantando a mão direita, começou, com um ramo de flôres que lhe fôra offerecido á chegada, a brandi-lo sôbre o aggressôr, que disparou segundo tiro, indo alcançar o monarcha pêlos costas.
O sr. D. Carlos levou as mãos á cabêça e tombou immediatamente sôbre o lado direito, emquanto várias pessôas caíam sôbre o regicida. Este tombou no chão e ainda d'ai disparou terceiro tiro, que se perdeu, ficando depois môrto também por uma bala com que o alvejaram.
Emquanto isto se passava, um indivíduo alto, de bigode e barbas nêgras, envergando um grôsso varino, que se achava postado junto ao ministério do reino tirou de debaixo do capote uma carabina e, avançando pâra a carruagem, cujo cocheiro, desvairado, tocava os cavallos, disparou um tiro sôbre o príncipe real, attingindo-o na face, tiro que foi logo seguido de um outro, que o alcançou no peito.
Então, quando êlle ia a disparar terceiro tiro, um polícia corajôso antepôz-se-lha e conseguiu desviar a arma pâra o alto, ao mêsmo tempo que um official, que fôra attingido numa perna por uma bala disparada por um outro popular, lhe descarregava uma fórte cutilada na cabêça, que o prostrou.
Outros tiros já se haviam dado, indo um dêlles passar ao de leve pêlo braço do infante. Emquanto a carruagem real corria á desfilada, os polícias que estavam perto, tirando os revólvers, alvejaram diversas pessôas, sendo varado o indivíduo das barbas e do gabão e um outro, que também estava armado de revólver.
Em meio dêste panico, chegou o senhôr infante D. Affonso no seu automóvel. Viu rapidamente o que se passava, tirou do bôlso um revólver, aperrou-o e seguiu, como louco, atraz da carruagem real, que seguiu a tôda a brida pâra dentro do Arsenal.
0 momento foi horrorôso e tôdos perderam a cabêça. Mêsmo os mais animosos não sabiam contar o que se passava e estavam como doidos. Uns fugiam, os polícias corriam de um pâra outro lado, o sr. Craveiro Lopes, official de polícia, saltava, empunhando a sua espada, á procura de um cavallo.
Desorientados, perdidos, tôdos quantos se achavam ali, naquêlle momento, seguiram direcções que, depois de acalmados, não saberiam descrevêr. E essa desorientação repercutiu-se immediatamente por todas as ruas da Baixa, onde não se via senão gente a corrêr e a cruzar-se, os estabelecimentos a fecharem as suas portas, tôdos com um ar de terrôr e de afflição.
No Terreiro do Paço os trens chocavam-se, os cavallos das ordenanças corriam em tropel, ouviam-se gritos, um rumôr medonho corria pêla turba e tudo fugia, num “salve-se quem puder” infernal.
Haviam sido prêsos mais alguns dos indivíduos que tinham disparado contra a carruagem; o cadáver do homem das barbas seguia, em braços dos polícias, pâra a esquadra dos Capellistas, e os outros dois cadáveres eram transportados péla mêsma fôrma, pâra o interiôr do edifício da câmara.
Quem eram os regicidas

Como se vê da narrativa precedente, os dois regicidas fôram in continenti mortos por um official e pêla polícia. Foi também môrto pêla polícia um pobre rapaz que fugia apavorado e que ulteriormente se demonstrou que não têve qualquer participação no attentado. Fôram prêsos três indivíduos, indigitados como cúmplices, mas parece verificar-se que também são innocentes.
Quanto aos dois regicidas, estabeleceu-se quási immediatamente a sua identidade, e das investigações até agora feitas apenas pôde suppôr-se que êlles procedêram sem a connivência de mandatários. Um dos regicidas chamava-se Manoel dos Reis da Silva Buiça, contava 32 annos, e era natural da freguezia de Adueiras, concêlho de Mirandella. Era êsse o indivíduo de barba tôda que pâra praticar o attentado se serviu de uma carabina.
O outro regicida, chamava-se Alfrêdo Luiz da Costa, contava 23 annos e era natural de Casevel, província do Alentejo.
Sôbre os antecedentes de ambos deu o Diário de Notícias de Lisbôa, fôlha conservadôra de escrupulosa informação, algumas notas que, pêla estreitêza do espaço, temos de resumir como segue:
Manoel dos R. da Silva Buiça havia casado ha dez pâra dôze annos com Hermínia Augusta da Costa, natural de Lisbôa.
Dêste matrimónio houve dois filhos, Elvira e Manoel, contando actualmente o primeiro sete e o segundo quatro annos.
Viuvou ha cêrca de seis mêses e ha quatro que vivia com a sogra, Maria de Jesus, de 56 annos, natural de Borba.
Foi 2.° sargento de cavallaria e instructôr da carreira de tiro de Bragança, tinha o curso de mestre de armas e possuia a medalha de atiradôr de 1.ª classe.
No dia do attentado tinha saído ás oito horas da manhã, não voltando mais a casa.
Ha dez annos que era professor do acreditadíssimo estabelecimento de instrucção Collégio Nacional.
Buiça foi sempre um zelôso professôr, dedicado pêlos seus discípulos, que muito o queriam.
Entre o professorado official era tido como um exemplar preceptôr.
O directôr do Collégio, que muito o estimava, nunca notara no seu subordinado a mais leve alteração.
No dia do attentado, o regicida pediu dispensa ao seu directôr de leccionar depois de uma certa hora, pretextando pâra isso a doença de um filho que pretendia levar ao hospital, visto não têr meios pâra tratar a criança.
Silva Buiça era assíduo na carreira de tiro em Pedrouços.
Quanto a Alfrêdo Luiz da Costa, êsse possuia actualmente um escriptório de commissões na rua dos Douradôres 28, 4.°, onde também estava hospedado.
Era relativamente illustrado, fallando nas reüniões e collaborando em diversos jornaes.
Era tido como um bom, e por isso bastante estimado entre os seus collegas.
Nunca se lhe ouviu a mais leve referência ao nefando acto que pôz em prática.
Foi caixeiro em diversos estabelecimentos de Lisbôa, entre êlles os Grandes Armazens do Chiado, saíndo sem nota alguma desfavorável pâra a sua reputação de rapaz trabalhadôr e honesto.
O regicida era sobrinho de um importante e bem acreditado commerciante com estabelecimento na rua Augusta.

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Comprehende-se que nos é impossível dar conta de tôdos os factos que se seguiram a êste tremendo acontecimento. Limitar-nos-emos, pois, a consignar que, proclamado immediatamente rei de Portugal, em conformidade com as disposições applicáveis da constituição do Estado, o infante D. Manoel, o ministério presidido pêlo sr. conselheiro João Franco apresentou a sua demissão, que foi acceite pêlo nôvo monarcha, reünindo-se o consêlho de Estado pâra resolvêr sôbre a grave situação, e incumbindo o nôvo rei o sr. conselheiro Ferreira do Amaral, de constituir nôvo ministério, missão espinhosa que foi acceite, organizando-se o gabinête como adiante se vê.
Proclamação de El-Rei D. Manoel

Portuguêses! -Um abominável attentado veio opprimir com a maior amargura o Meu coração de filho amantíssimo e de irmão extremôso, e enlutar a Família Real e a tôda a Nação, pondo o mais prematuro termo á preciosa vida de Sua Magestade El-Rei o Senhôr D. Carlos I, Meu augusto é muito amado Pae, e á de Sua Altêsa Real o Senhôr D. Luiz Filippe, Meu muito querido Irmão. Sei que a Nação compartilha a Minha extrema dor, e detesta indignada o crime horrendo, sem precedentes na história portuguêsa que assim, inesperada e tristemente deu fim ao reinado de um Soberano bom, illustrado, justo e querido, e mallogrou o de um Príncipe tão esperançôso pelos seus eminentes predicados e virtudes.
Nesta desventurada conjunctura sou chamado, pêla Constituição da Monarchia, a presidir aos destinos do Reino; na sua conformidade e no desempenho dessa elevada missão, empenharei tôdos os Meus esforços pêlo bem da Pátria, e por merecêr a affeição do pôvo português.
Apressando-me portanto a cumprir preceito constitucional:
Juro mantêr a religião cathólica apostólica romana e a integridade do reino, observar e fazêr observar a constituïção política da Nação Portuguêsa e mais leis do reino, e provêr ao bem geral da Nação, quanto em mim couber, e promêtto rectificar em breve êste juramento nas côrtes geraes da Nação Portuguêsa.
Outrosim declaro que me apraz os actuaes ministros e secretários de estado continuem no exercício das suas funcções.
Paço, em 1 de fevereiro de 1908. - DOM MANOEL II. - (Seguem-se as assignaturas de tôdos os ministros).

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