A Batalha de Braga - I

Monumento à Guerra Peninsular na Rotunda da Boavista, Porto.

Faz hoje, 20 de Março, 198 anos que a cidade de Braga foi invadida pelas tropas de Napoleão. Crendo que nada existe em toda a internet e muito pouco no nobre suporte de papel acerca deste importante evento da História de Braga e Portugal, inicio hoje, data comemorativa, a publicação de dois textos que narram a evolução dos trágicos acontecimentos. Começo pelo artigo de Alberto Feio publicado originalmente no jornal “Diário do Minho” de 21 de Março de 1926 e reproduzido em 1984 por Henrique Barreto Nunes e Eduardo Pires Oliveira em Coisas memoráveis de Braga e outro textos.
Nos artigos da Wikipédia sobre a Guerra Peninsular e Soult lê-se que este, após ter derrotado as forças britânicas comandadas pelo general John Moore na Corunha, passou o Minho a 4 de Março de 1809 conquistando de seguida, no dia 12, a cidade de Chaves, o que geograficamente não faz qualquer sentido e é desmentido por José Augusto Ferreira (Fastos Episcopaes...). Este refere que a escolha de Chaves para entrar em Portugal se ficou a dever à feroz oposição dos portugueses em Valença que impediu o marechal Duque da Dalmácia de atravessar o Minho. Narra o volume VI da "História de Portugal de Barcelos", p. 340, que, a 2 de Fevereiro, chegou à fronteira portuguesa do Norte, a primeira divisão francesa comandada por Soult, juntando-se-lhe, onze dias depois, todo o exército francês. "Tendo feito algumas tentativas infrutuosas para passar o Rio Minho junto de Valença, Caminha e Vila Nova de Cerveira, Soult seguiu o caminho de Orense. Em 4 de Março conseguiu internar-se em Portugal". Também o Dicionário de História de Portugal de Joel Serrão, tomo V, p. 50, defende esta posição. Erra quando diz ter sido assassinado o general Bernardim Freire de Andrade pela “plebe” de Braga depois da derrota infligida às suas tropas pelas forças napoleónicas. De facto, o General Comandante em Chefe Freire de Andrade foi chacinado pela tão corajosa quanto louca população de Braga antes da contenda com os franceses, que tomou “como traição os seus fundados receios de aceitar ao inimigo um combate com meios tão fracos e desproporcionados” (Monsenhor J. Augusto Ferreira, Fastos Episcopaes da Igreja Primacial de Braga, tomo IV, 1935, p. 22).



O texto de Alberto Feio:



ENTRADA DOS FRANCESES



Fez ontem, 20 de Março, 117 anos que a cidade de Braga foi invadida pelas tropas de Napoleão.
Nicolau Soult, a quem o Imperador incumbira a conquista de Portugal, comandava um exercito de 24.000 homens, com quatro divisões de infantaria, ás ordens dos generais Merle, Mermet, Delaborde e Heudelet, um corpo de cavalaria do comando do general Franceschi e duas brigadas de dragões dirigidos pelos generais Lahoussave e Lorges.
Simples sargento da Revolução, bem depressa mostrou méritos militares apreciáveis, ganhando o bastão de Marechal da França e o titulo de Duque da Dalmácia.
No dia 18 de Março de 1809, a vanguarda do exercito francês estabeleceu contacto com as forças que guarneciam o Carvalho de Este. soberba posição a Nordeste de Braga, onde passava a estrada de Chave que o invasor seguia tendo o flanco direito apoiado na Ponte do Porto e o esquerdo na estrada de Lanhoso a Guimarães.
As avançadas romperam fogo, registando-se as primeiras baixas na freguesia de Pedralva.
Na vespera, uma sexta feira aziaga, a populaça desenfreada dominada por uma falsa ideia de traição, massacrara o General em chefe das tropas que defendiam o Minho, Bernardim Freire de Andrade, trucidando-o no Campo de Sant'Ana. Seu corpo - informa o pe. Manuel Bento Ferreira, Vigario de S. Lázaro - foi posto em um caixão e sepultado naquela igreja, tendo só em 26 de Setembro depois de desfeitas as dúvidas, os sufrágios religiosos, a que assistiram mais de quarenta padres.
Em 21 de Outubro celebraram-lhe então solenes exequias. Oficiou o Conego Pedro José da Silva, Arcebispo de Vermoim, dignidade do cabido bracarense. Apesar de estar bem ilibada sua honrada memoria, ainda havia quem velhacamente insinuasse dúvidas. Assim o deixa perceber um pasquim da época, onde se dá noticia das exequias e se diz que o conego oficiara com capa preta «o que causou sobre maneira grande admiração aos Políticos; pois se o tal General hera inocente devia usar dela branca, ou incarnada como martir».
No dia seguinte, 18, a scena canibalesca repetia-se, tendo como victima o Quartel Mestre Custodio Gomes de Vilas Boas, tenente coronel de engenheiros, preso no mosteiro de Tibães e trazido a Braga como rez inocente.
O Vigario de S. Lázaro, que lhe deu sepultura na igreja, regista o obito, dando-lhe a alcunha de - O Engenheiro.
Engenheiro e distinto era ele e, como tal, levantou e organizou a «Carta de Entre Douro e Minho e Divisão de suas comarcas» e fez o projecto grandioso da navegabilidade do Cávado desde Esposende até ao vau do Bico, trabalhos, completamente perdidos no fogo posto à casa do Rego, onde residia.
A defesa do Carvalho d'Este, a cargo do barão de Eben, um prussiano aclamado general pela populaça e que parece o primeiro culpado na morte de Bernardim, era constituida só por 2.000 soldados regulares e por uma multidão armada de piques e chuços.
Concentrado o corpo do exercito, em que havia maioria de bravos de Austerlitz e de Friedland, a posição era vencida num quarto ataque, debandando precipitadamente os defensores.
Nessa manhã de 20 de Março o vale era talado e devastado de franceses, que tinham em frente as portas escancaradas da Augusta cidade dos Arcebispos.
Para não perder de todo o tempo a populaça imolava ainda, antes de abandonar a cidade, o corregedor dr. Bernardo José de Passos, que, morto na fonte da Carcova, foi levado a enterrar á coutada do Hospital.
A resistencia do Carvalho motivou as maiores violencias. Saqueada a pequena igreja de S. Pedro, acocorada no fundo do estreito vale d'Este, fizeram o massacre de todo o homem encontrado. O Abade Simão Pereira regista trinta e tres mortes na pequena freguesia, alem dos inumaraveis (sic) de fóra, que os franceses procuravam em todas as tocas, «como quem anda á caça», comenta o bom reitor.
O Duque da Dalmacia devia estar satisfeito. Entrado no Bom Jesus, e informado da chacina feita em Braga, maravilhado com a paisagem, que olhos estrangeiros não tem habito de contemplar, diz-se que exclamou: Que lindo país tem estes barbaros!
Ao entrar na cidade, porem, sofreu a maior decepção. Queria encontrar uma terra rica, em que pudesse abastecer-se, e veio encontrar um amontoado de casas! Um éxodo previdente tinha feito desaparecer a população!

Diário do Minho, 21 de Março de 1926.

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