A Batalha de Braga - III (1.ª parte)


Continuação da série de artigos sobre a Batalha de Braga travada em Março de 1809, que a tantos bracarenses e outros portugueses custou a vida, com a publicação do texto de J. Augusto Ferreira (Monsenhor J. Augusto Ferreira, Fastos Episcopaes da Igreja Primacial de Braga, Séc. III - Séc. XX, tomo IV, edição da Mitra Bracarense, 1935). Apesar de ser de leitura extremamente interessante, decidi dividi-lo em duas partes, a primeira, abrangendo desde os acontecimentos que imediatamente antecederam a chegada do exército de Napoleão a esta cidade até à sua ocupação, e a segunda, a continuação do acidentado percurso dos franceses em direcção à cidade do Porto - onde se deu o desastre da Ponte das Barcas - até à sua expulsão em 12 de Maio pelo exército anglo-luso comandado por Wellesley e a consequente fuga desonrosa para a Galiza. Embora correndo o risco de retirar alguma informação ao documento de J. Augusto Ferreira, decidi ainda, para não tornar estes artigos demasiado extensos, retirar-lhe as anotações.
Passados tantos anos, continuam estes "Fastos..." a ser a melhor obra acerca da História de Braga e fonte imprescindível para o conhecimento da de Portugal pelo que me atrevo a sugerir uma sua reedição.
Mantém-se a grafia original.

Segunda Invasão Franceza (1809):


Em Março do anno seguinte de 1809 uma Divisão franceza, sob o commando de Soult, invadiu de novo Portugal, pois Napoleão não se resignava á perda definitiva do nosso paiz; todavia, não podendo atravessar o rio Minho, por causa da reacção contraria dos portuguezes em Valença, entrou pela Provincia de Traz-os-Montes, em Chaves, que se rendeu logo aos 11 de Março, e dali partiu a Divisão invasora pela estrada de Braga, tendo na Falperra, no Carvalho d' Éste e na Ponte do Porto vigorosa resistencia opposta durante 5 dias (?) pelos portuguezes, que se bateram heroicamente na defeza da terra da sua Patria, mas tiveram afinal de ceder em presença da desproporção das forcas do inimigo e da sua disciplina militar.
No dia 19 de Marco de 1809 os francezes forçaram a passagem do Carvalho d'Éste, galgando por cima de montões de cadaveres dos populares, que pagaram com a vida os extremos do seu patriotismo.
No dia seguinte, 20 de Março, entraram os francezes em Braga, que saquearam e roubaram, conta-se, durante três dias, levando tudo quanto encontraram nas casas particulares, e bem assim as pratas das Igrejas; felizmente a cidade estava por completo despovoada, e dos Conventos dos Remedios, Conceição, Ursulinas e Salvador tinham saido as Freiras, por verem retirar o Arcebispo e o Bispo Coadjutor, que todos foram para o Porto; portanto, aqui, dizem, só houve a lamentar perdas materiaes e não de vidas.
Isto assim seria; comtudo os chronistas bracarenses registam a passagem devastadora das tropas francezas pelas aldeias, onde roubavam e matavam, calculando em mais de mil o numero de mortos, entre os paisanos, que vinham fugindo da Serra do Carvalho; além disso, não falta quem chame imprudente á desastrosa resistencia que fez o povo de Braga e suas cercanias á Divisão commandada pelo General Soult; porém mais imprudente e desastrosa foi certamente a amotinação infrene da plebe, que na retirada de Salamonde prendeu, no dia 17, Bernardim Freire d'Andrade, General commandante em chefe, e depois de muitos insultos, tomando como traição os seus fundados receios de acceitar ao inimigo um combate com meios tão fracos e desproporcionados, conduziu-o a Braga, onde, junto ao Aljube, cobardemente o assassinou, e o mesmo fez pouco depois ao Tenente-Coronel de Engenheiros Custodio José de Villas Boas, Quartel mestre General do exercito do Norte e que se tinha refugiado no Mosteiro de Tibães.
Os dois Ajudantes d'ordens de Bernardim Freire, D. João Correia de Sá e Manuel Ferreira Sarmento, esses, fugindo de Braga, a procurar asylo no Mosteiro de Santo Thyrso, foram ali assassinados á portaria no dia 20 de Março; e neste mesmo dia, antes da entrada dos francezes, os Patriotas braguezes exaltados assaltaram o Aljube, arrancaram de lá o Dr. Bernardo José de Passos, Desembarrador da Relação do Porto e Corregedor de Braga. preso como anti-portuguez, arrastaram-no para o Campo de Sant'Anna onde a tiros e estocadas o assassinaram.
Por estes infelizes ou antes criminosos acontecimentos vê-se o estado de desorganização e de anarchia, em que se encontravam as tropas portuguezas em Braga e fóra d'ella, as quaes menos doceis ás ordens do seu novo chefe, o Barão de Eben, e sem planos de defeza, abandonaram esta cidade, occupada pelos invasores em 20 de Março, como disse.


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