26 de abril de 2007

Guernica, 70 anos.

"A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento" (Milan Kundera).


A negação da existência do holocausto não passa da tentativa de o apagar da memória dos homens. Não assinalar o bombardeamento de Dresden em 45 não é mais do que a tentativa de o deixar caír no esquecimento. Descubra, quem quiser, a diferença. Já entre Guernica e Dresden, a única dissonância (para nós, não para as vítimas) reside no número de baixas civis, que é abismal.
Gostei muito do artigo de JPP no Público de 21 do corrente, republicado quatro dias depois no Abrupto, acerca da recente criminalização da negação do holocausto, contrapondo-a à tolerância legislativa persistente no que respeita aos crimes do comunismo. É verdade que cada vez mais tudo é legislado e cada vez mais o é através da proibição; é verdade também que se verifica, no Velho Continente, um esforço de normalização dos costumes e de formas de pensar (!). Parece-me, no entanto, que este fenómeno poderá não ser mais do que uma reacção defensiva da "livre" Europa aos movimentos totalitários que, com o agravar da perigosidade do islamismo fundamentalista, se têm vindo a manifestar com crescente arrogância no seio do espaço europeu. Dito de maneira simples, trata-se de reagir a uma estalada com outra, o que não deixa de se situar dentro da sensata legitimidade do direito de defesa.
Mesmo tendo em conta que a gravidade das consequências da negação do holocausto não é a mesma da negação da ida do homem à Lua, com esta nova legislação, se me apetecer dizer em público, por exemplo aqui no Idolátrica, que não houve holocausto, posso ser preso, o que, sem dúvida, deixaria a liberdade de expressão (e eu) em muito maus lençóis. Se eu negar a existência dos goulags, progroms, valas-comuns e outros crimes do estalinismo, não me acontece nada mais grave do que posicionar-me no ridículo. Se negar o bombardeamento de Dresden, felicitam-me e até me agradecem. Alguns governos deste continente têm já um longo historial no encobrimento de crimes horrendos que envergonham os seus países. Para estes "mandarins da Europa" (obrigado, F. P.!) a Liberdade não passa de um argumento potencialmente esgrimível em discursos demagógicos e a História, uma ainda respeitável área de conhecimento que pode e deve ser revista consoante os conjunturais "altos interesses" das nações, leia-se antes, a manutenção do status dos poderosos.

Consultas:
Apontamentos de Churchill sobre o bombardeamento de Dresden (documento protegido pelas leis de copyright norte-americana e britânica)
Marco A. T. Antunes, Uma história do gulag

2 comentários:

Lâmina d'Água & Silêncio disse...

" E tudo que é sólido se desmancha no ar"!

Gostei muito...
Beijo,
Cris

Pedro Leite Ribeiro disse...

Em relação às estaladas, "quem se lixa é o mexilhão", quer dizer, levamos com os atentados, ou com o medo deles, e depois com as consequentes medidas restritivas em relação às liberdades de expressão, circulação e o que virá por aí. Quanto aos estados da matéria, o sólido parece ter caído definitivamente em desuso.