Na graça dos deuses


Ao 21.º dia, precisamente quando é anunciada a revisão em alta da economia portuguesa e a sobrelotação iminente do aeroporto da Portela, surge em público e, mitificando ou não os factos, dá o que aparenta ser uma estocada certeira na blogosfera, imprensa e oposição política.
A blogosfera é tratada ainda, com certeza por conveniência de políticos e outras figuras públicas que nesta vasta plataforma têm sido indiciados dos mais variados erros, fraquezas ou crimes, como uma entidade abstracta, movediça, dificilmente observável e analisável (o que não deixa de ser verdade). No entanto, foi num blog devidamente identificado que saiu aquilo que talvez pudesse ter sido considerado como a acusação que o Primeiro ontem afirmou não existir. Não seria nada de mais, nem menos do que o minimamente exigível, confrontar o entrevistado com o conteúdo do blog. Isso não foi feito e estou convencido de que não se tratou de mero esquecimento acidental. Nem sequer uma leve referência ao “Do Portugal Profundo” lampejou. Não houve jornalistas armados com documentação e dados concretos (José Alberto Carvalho nem sequer sabia os nomes das firmas que deram pareceres negativos à Ota), ou os simples papel e lápis com que poderiam registar as contradições eventualmente detectáveis nas respostas do entrevistado. Nada foi perguntado acerca do destino dos doentes durante o período compreendido entre o encerramento de urgências e a anunciada abertura de novas, quando o procedimento normal é abrir primeiro as novas e proceder posteriormente à transferência de pessoal, serviços e utentes.
Maus jornalistas? Péssimos actores? Ou ambas as coisas?
O Primeiro saiu de cara lavada, com a protecção dos deuses tal como acontece com todos os vencedores. A oposição de direita revelou, uma vez mais, o estado calamitoso em que se encontra, quer no silêncio que antecedeu a entrevista, quer na reacção que teve. Se houvesse lugar a antecipadas, adivinhar-se-ía nova vitória dos socialistas e, mesmo que não com maioria absoluta, certamente com o acréscimo da força que provém da repetição de vitórias eleitorais.
“Vamos concentrar-nos nas coisas que realmente interessam!”, constituiu a declaração de armistício e capitulação da esquerda em relação a uma guerra em que nunca se atreveram a entrar.
Mas, apesar de tudo:
Foi o primeiro abalo sofrido por este governo. Percebeu-se bem a tremedeira, sem recurso a sismógrafos ou quaisquer outros instrumentos de precisão. E esse facto, essa vitória, esses louros, têm que ser imputados à LUSOSFERA, a essa “oposição-mirim” que vive nas opiniões irreprimíveis do cidadão-comum.

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Comentários: 3

Blogger Isabel:

A expectativa foi desmesuradamente grande para uma entrevista que se adivinhava desenhada com precisão, qualquer que fosse o canal televiso, diga-se.

Ainda que se sentisse um ou outro deslize, como geralmente acontece a todos aqueles que têm confiança a mais, o desfecho desta polémica confirma que Portugal continua um país de brandos costumes.

sexta-feira, 13 abril, 2007  
Blogger Pedro Morgado:

A vitimização é uma arma política emergente.
O português gosta de se vitimizar. Os portugueses são sempre solidários com quem se vitimiza. As teses de perseguição, mesmo que infundadas, potenciam estranha admiração na sociedade portuguesa: foi assim com Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro e Isaltino Morais. José Sócrates é o senhor que se segue.

sexta-feira, 13 abril, 2007  
Blogger Joshua:

Chegados aqui, com uma lusoblogosfera activa, poderosa, cheia de mentes numa sinergia imparável, nada será como dantes porque os mecanismos de vigilância da acção política e a emissão imediata de opiniões, sentimentos e estados de espírito, farão com que se esboroe a inconsistência dos mentirosos, a verborreia dos tendenciosos, a nuvem de enganos de que se faz a vida nacional.

Certeiro post!!!

sábado, 14 abril, 2007  

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