A imagem dos Professores, por Luís Filipe Rodrigues


Preocupa-me a imagem dos professores que está a ser transmitida à comunidade portuguesa. Dizem que não queremos ser avaliados. Todos nós o desejamos, desde que seja de forma criteriosa, justa e responsável. Trata-se de uma medida que deveria ser estudada pelo ministério conjuntamente com Doutorados em Psicologia da Educação, Doutorados em Sociologia da Educação, Doutorados em Pedagogia, pelos professores, pelos representantes de Doutorados nas diferentes áreas do saber. Só assim se faria um programa de avaliação cabal. Não é verdade que não fossemos avaliados até agora; todos tínhamos de fazer acções de formação, nas quais éramos avaliados; tínhamos, além disso, que fazer um Relatório de Reflexão Crítica que era avaliado por uma comissão nomeada pelas Comissões Executivas de cada escola. As acções de formação sempre foram úteis; agora são obrigatórias e a maioria delas têm de ser pagas (será justo sermos obrigados a ter uma formação que somos obrigados a pagar). Muitos dos Professores Titulares que nos vão avaliar, os primeiros deste processo de transformação do Estatuto de Carreira Docente, conseguiram o cargo quase que administrativamente (“somando pontos”). Seguramente esses nossos colegas não passarão pelas provas extremamente exigentes a que seremos submetidos (não é isso injusto?), a razão pela qual isso aconteceu desconheço inteiramente.
Muitos de nós deseja qualificar-se na vida, deseja, além disso cultivar-se, e, ao mesmo tempo, ser competente e formar-se ao nível da inteligência relacional. Onde vamos nós, professores, encontrar tempo para isso? Realizei o meu mestrado gastei mais de 8000 euros, com muitas privações (só os ricos é que podem fazer pós-graduações?). Não pude roubar tempo ao meu desempenho como professor; sou uma pessoa responsável e de princípios; tive que roubar tempo à minha família (só os solteiros é que podem fazer mestrados?).
Desejava fazer um doutoramento; mas, com a burocracia e legislação onde nos entranhamos, onde temos tempo para fazer doutoramentos? Ou seja, desejamos ser qualificados mas não podemos.
A burocracia e o processo de ensino são tão burocrático que não nos resta tempo para falar dos alunos; nós não necessitamos de mais computadores, precisamos de mais psicólogos que nos ajudem a tratar os alunos de forma eficiente e eficaz. Temos de preencher tantos papéis que na prática são inúteis para o processo ensino-aprendizagem. A nossa prática docente é a relação com os alunos tendo como meio intermédio os conteúdos programáticos. É aí que nos temos que concentrar. O Sistema de Ensino não é lúcido; deveríamos questionarmo-nos exaustivamente sobre o porquê e o para quê de cada procedimento (chegaríamos à conclusão que as gerações que temos em mãos estão a ser oprimidas pelos papéis).
Nós, professores, trabalhamos muito mais de 36 horas; trabalhamos à noite e ao fim-de-semana. Este ano, tive imensas reuniões que me obrigaram a estar na escola 12 ou mais horas (será correcto?). Algumas vezes, nestes dias, estive quase 48 sem ver a minha filha, e pouco coabitei com a minha esposa (isto será razoável?).
Será que não há ninguém que elucide a comunidade portuguesa da realidade efectiva dos professores portugueses?


Luís Filipe Rodrigues
(Professor do Ensino Básico e Secundário)



(Comentário à postagem anterior, "eNSINO")

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