O Regicídio - I

O Regicídio, acontecimentos imediatamente anteriores e posteriores, relatados e tratados por Júlio Gama, proprietário e director de "A Gazeta das Aldeias, Semanário Illustrado de Propaganda Agrícola e Vulgarização de Conhecimentos Úteis", fundado em 1896, Porto. Esta e outras publicações que se hão-de seguir fazem parte do volume XXV, décimo terceiro ano, 1908, primeiro semestre. Procurar-se-á manter a ortografia original pedindo-se compreensão para um ou outro lapso que possam ocorrer.


CHRÓNICA DOS ACONTECIMENTOS -   Gazeta das Aldeias


Já não nos atrevêmos a completar esta epígraphe com o habitual qualificativo de polilica, porque, a bem dizêr, não sabemos qual seja o carácter definido desta situação em que actualmente nos encontramos, e cujo aspecto fundamental é o do mystério.
Ha dias o Primeiro de Janeiro, o Commércio do Pôrto a outros jornaes noticiaram nas respectivas secções telegráphicas que haviam sido presos em Lisbôa dois jornalistas e dois commerciantes, sem todavia revelarem os motivos da prisão.


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Parece que êste facto, talvêz precisamente pêlo extremo laconismo da informação, excitou a curiosidade pública e originou os variadíssimos boatos, que esfusiávam pêlos centros de reunião, que se discutiam e commentavam em tôda a parte, mas que a imprensa não reproduzia, acautellando-se dêsse modo contra a possível incidência da lei a que está sujeita.
Volvidos poucos dias era apresentada em tôdas as redacções dos diários portuenses a seguinte recommendacão official:

Pâra cumprimento de órdens superiôres, fica avisado o ex.mo sr. redactôr dêste jornal, ou quem suas vezes fizer, pâra não fazer referências ás notícias alarmantes dos successos que se têm dado em Lisbôa, sôb pena de incorrèr na lei em vigôr.
Pôrto, 22 de janeiro de 1900 e oito. - O chefe da 1.ª esquadra policial, Francisco Duarte da Cruz.

Salvo o devido respeito, esta recommendação peremptória á silenciosa imprensa, faz-nos lembrar um episódio de uma operêta que têve grande celebridade ha uns bons trinta annos. Havia na peça um príncipe e um mudo. Esta última personagem seguia constantemente o príncipe e a câda momento o interrompia com gestos e simples sons inarticulados, contra os quaes o príncipe protestava sempre com a mesma intimação:
-”Cala-te! Cala-te!”
Era de um effeito infallível naquêlles tempos ingénuos em que as plateias riam a bandeiras despregadas com os gracejos mais innocentes. Agora a imprensa também pouco mais faz do que... gestos. Mas é tal o receio de que recupere a faculdade de se fazêr entendêr por palavras, que ainda antes de ella fazêr um gesto já lhe bradam :
- Caluda!
Não sabemos se ha vantagem na imposição dêste silêncio, mas podemos affirmar que ella avoluma a importância dos factos verdadeiros e cria outros perfeitamente imaginários. Assim, quando nós, num legítimo sobresalto, quizermos verificar se Lisbôa estaria convertida num vulcão, recebemos esta tranquillisadôra resposta que aqui estampamos, convencidos de que não transgredimos a lei, nem podemos sêr malsinados por quem quer que seja:
“Não houve nem ha a mais ligeira perturbação da órdem. A estátua de D. José permanece no Terreiro do Paço.”

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