O dia em que o Bar Egípcio morreu


"O Bar Egípcio morreu" *

Sindicato da Poesia reuniu para se despedir do espaço, que defende que deveria ser de "interesse municipal". Falou-se mal de padres, empreiteiros e autarcas.


O ambiente fazia recordar os encontros clandestinos do passado onde a ironia, a crítica e a criatividade se juntavam para conspirar contra o poder político vigente responsável por um Portugal "que se fossem três sílabas de plástico era mais barato", como profetizava Alexandre O'Neill. Os poucos lugares para as cerca de 50 pessoas, o "lusco-fusco", as paredes decadentes com pinturas hieroglíficas, as intervenções acaloradas contra padres, empreiteiros e autarcas, marcaram o último dia do "Bar Egípcio" situado na sede do Sindicato do Comércio. Anteontem, o poder esteve nas palavras, sobretudo poéticas, sentidas, do Sindicato de Poesia, naquele que foi apelidado como o dia em que "o Bar Egípcio morreu".

Antes, o sindicalista António Lima historiou todo o processo que culminou com o abandono das instalações por parte da estrutura sindical "Achamos sempre que o edifício deveria ser considerado de interesse municipal". A Associação de Defesa do Património de Braga, uma das promotoras da tertúlia, através de Miguel Bandeira, falou "do ambiente deplorável, confrangedor num momento de despedida". O período de "pré-modernidade do património" que se vive na cidade está reflectido "no processo atribulado e complexo" para a classificação do espaço: "Não adianta preservar pedras se não se preservam vivências".

Revolta das múmias

Foi de múmias, "a revolta das milenares múmias académicas", que Eduardo Pires de Oliveira se referiu, com "humor negro", aos restos que ficarão do bar depois de morto e enterrado, onde "um túmulo sem vida" repousará na memória colectiva. O director da Biblioteca Pública de Braga, Henrique Barreto Nunes, leu um manifesto de 1891 que, a dada altura, fala "do jugo de patas obscenas de uma canalha" que manda nas cidades. Falta juntar ao ambiente os coletes reflectores que os oito proclamadores vestiam, justificados por António Durães "com o acidente que na sala aconteceu quando se fundou o Sindicato", pelos acidentes que "ainda vamos fazendo" e que por isso "mais vale andar prevenido".

"Uma luz pequenina" de Jorge Sena começou então a ser ligada, crescendo depois pela "Nostalgia" de Florbela Espanca, não esquecendo "As pequenas gavetas do Amor" de Ana Luísa Amaral, para terminar bem intensa e audível no megafone de "Cidade" de Sophia de Mello Breyner.

Mas quando se esperava que, lentamente, as luzes do "Bar Egípcio" se fossem apagando, eis que surge, do fundo da sala, um pequeno holofote na próxima semana, é inaugurada uma exposição no mesmo espaço, aberta a toda a gente, para toda a gente ver e sentir "A Quinta África. A África Portuguesa", que "servem de mote a estas paredes".

Pedro Antunes Pereira


* Transcrição de artigo publicado no Jornal de Notícias de 2 de Fevereiro de 2006, suponho que apenas disponível em cache.

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